As Ações de Cidadania do Livreiro Raimundo Jinkings que me atingiram
Salomão
Larêdo
Com meus
pais e irmãos chegamos a Belém em 1961 e nossa busca por educação e cultura
sempre foi o foco, mas as condições materiais
de minha família, quase nenhuma. Meu pai, funcionário da Estrada de
Ferro do Tocantins, autarquia federal, em Tucuruí, obtinha, daí, com seu trabalho honesto, ético e responsável, o sustento de toda a família:
8 pessoas - ele, minha mãe, Zuzu nossa irmã de criação e cinco filhos, todos menores de idade: eu aí
incluso como o terceiro da prole - conseguiu alugar. no bairro da Cremação,
periferia pobre de Belém, um casebre de
um só compartimento, coberto de palha, assoalho
de madeira apodrecida sob muita
lama onde os mussuns e carapanãs faziam
festa à noite e nós procurávamos adquirir conhecimento na grande cidade
desconhecida e numa dessas, entro no
salão do Grande Hotel – que ainda não tinha sido criminosamente demolido – na
avenida Presidente Vargas, centro de Belém. Meio desconfiado, sem jeito, sem um
tostão furado no bolso, aproximei-me de uma barraca de ferro, instalado nessa
área, uma espécie de hall de recepção,
cheio de livros. Meus olhos brilharam, pois já possuía intimidade com a
leitura que cedo aprendi, na Vila do Carmo, município de Cametá onde nasci e
pelas leituras que meu pai fazia emprestando livros de gente conhecida em Tucuruí. Fiquei sabendo
que era uma espécie de feira do livro, cujo responsável seria um
jovem senhor chamado pelos presentes,
de Jinkings, que eu, claro, não conhecia. Olhei, saí e gravei o fato e o
nome: Jinkings.
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| Livrariazinha da Jinkings, um espaço cultural |
Não
estou bem certo se a barraca de livros estava dentro do salão ou na Terrace do
Grande Hotel. Peço que dona Isa, esposa
do seu Jinkings, e cara amiga , esclareça ou diga se laboro em grande equívoco contando um fato que só
existe na minha imaginação. Bom. O certo é que audacioso,um intruso social,
entrei no hall do Grande Hotel, um
palácio para quem morava num pobre e
humilde barraco do subúrbio, situação que chegou a motivar um colega da
faculdade de direito, de família burguesa, famosa, importante e abastada e que
morava bem perto do Grande Hotel, de chamar-me de jornalista de subúrbio. Por preservar valores repassados
pela educação que recebi de minha família, não o excluí do relacionamento até a presente data, e, esse fato, jamais arrefeceu
meu ânimo.
Tempos
depois,
já fazendo o curso de Direito, passei a frequentar a Livraria Jinkings
na rua dos Tamoios e me tornei amigo do seu Jinkings e de toda a família
e, morando próximo à praça da República sem o Grande Hotel, a
Livraria Jinkings continuou o hábito de colocar o livro perto do público
leitor, na rua, onde as pessoas circulam. Conversei alguma vezes com seu
Jinkings e participei de muitos eventos na livraria e quando a Leila, sua
filha, passou a tocar a Livrariazinha e implementar a leitura, ao convite dela,
dona Isa, Toninho e Varico, fomos, eu, Maria Lygia e nosso filho Filipe, juntos
à ação concreta de formar cidadãos por meios
do livro e da leitura e então
vieram as crianças às atividades que visavam proporcionar a pais e filhos a
convivência com o mundo mágico do livro e da leitura que faz pensar, leva à cidadania cultural
instrumento democrático que pode mudar a
sociedade , pra melhor, é claro.
Centenas
de crianças passaram por lá nas manhãs de sábado do tempo que durou e quanto
gente se tornou leitora e ficou amiga dos livros através dessa ação política,
semente plantada por seu Raimundo Jinkings e cultivada por toda a família.
Ao lado
desse trabalho, desenvolvia meu projeto, o escritor na escola , desde a década
de 1960, de formar leitor , depois veio
o programa O Liberal na escola com o mesmo objetivo, onde passei 15 anos na
direção e formando leitor e a continuidade do trabalho que não acaba nunca que
é formar novas gerações de leitores por toda parte, incentivando a adoção de espaços de leitura, sobretudo
aqui na região amazônica.
Para
concluir o texto e fechar o raciocínio através do título deste artigo, lembro
que minha formação de leitor começou no seio de minha família, com meus pais,
irmãos e demais familiares e prosseguiu na escola e em toda parte. Mas, há
ações que são muito significativas nessa continuidade que são as oportunidades
que a vida reserva, como foi o caso do contato com o livro no que se pode chamar de embrião das atuas feiras do
livro. Seu Jinkings, pra mim, foi o semeador e o pioneiro entre nós da Feira de
livro que aconteceu em 1984, por inciativa do secretário de cultura Acyr Castro
e que aconteceram posteriormente no hall do Centur sob o comando da
bibliotecária Valdete Cunha e que depois seguiram com outras denominações, até a
atual que se chama Feira Pan Amazônica.
A cada
um de nós cabe a tarefa de formar leitor crítico, geração a geração, para que
possamos vir a ser um país de
leitores que efetivem o sonho de todos
por um sociedade mais igualitária, mais justa ,mais fraterna e mais feliz!
(Salomão Laredo é escritor e jornalista)

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