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sábado, 12 de abril de 2014

As Ações de Cidadania do Livreiro Raimundo Jinkings que me atingiram

As Ações de Cidadania do Livreiro Raimundo Jinkings que me atingiram
Salomão Larêdo

Com meus pais e irmãos chegamos a Belém em 1961 e nossa busca por educação e cultura sempre foi o foco, mas as condições materiais  de minha família, quase nenhuma. Meu pai, funcionário da Estrada de Ferro do Tocantins, autarquia federal, em Tucuruí, obtinha, daí,  com seu trabalho honesto, ético  e responsável, o sustento de toda a família: 8 pessoas - ele, minha mãe, Zuzu nossa irmã de criação  e cinco filhos, todos menores de idade: eu aí incluso como o terceiro da prole  -  conseguiu alugar. no bairro da Cremação, periferia pobre de Belém,  um casebre de um só compartimento, coberto de palha, assoalho  de madeira apodrecida  sob muita lama onde os mussuns  e carapanãs faziam festa à noite e nós procurávamos adquirir conhecimento na grande cidade desconhecida e  numa dessas, entro no salão do Grande Hotel – que ainda não tinha sido criminosamente demolido – na avenida Presidente Vargas, centro de Belém. Meio desconfiado, sem jeito, sem um tostão furado no bolso, aproximei-me de uma barraca de ferro, instalado nessa área, uma espécie de hall de recepção,  cheio de livros. Meus olhos brilharam, pois já possuía intimidade com a leitura que cedo aprendi, na Vila do Carmo, município de Cametá onde nasci e pelas leituras que meu pai fazia emprestando livros  de gente conhecida em Tucuruí. Fiquei sabendo que era uma espécie de feira do livro, cujo responsável  seria um  jovem senhor  chamado pelos presentes, de  Jinkings, que eu, claro,  não conhecia. Olhei, saí e gravei o fato e o nome: Jinkings.
foto leila jinkings
Livrariazinha da Jinkings, um espaço cultural
Não estou bem certo se a barraca de livros estava dentro do salão ou na Terrace do Grande Hotel. Peço que dona Isa,  esposa do seu Jinkings,  e cara amiga ,  esclareça ou diga se laboro em  grande equívoco contando um fato que só existe na minha imaginação. Bom. O certo é que audacioso,um intruso social, entrei no hall do Grande  Hotel, um palácio para quem morava num pobre  e humilde barraco do subúrbio, situação que chegou a motivar um colega da faculdade de direito, de família burguesa, famosa, importante e abastada e que morava bem perto do Grande Hotel, de chamar-me de jornalista de  subúrbio. Por preservar valores repassados pela educação que recebi de minha família, não o excluí do relacionamento  até a presente data, e,  esse fato, jamais  arrefeceu  meu ânimo.
Tempos depois, já fazendo o curso de Direito, passei a frequentar a Livraria Jinkings na rua dos Tamoios e me tornei amigo do seu Jinkings e de toda a família e,  morando próximo à  praça da República sem o Grande Hotel, a Livraria Jinkings continuou o hábito de colocar o livro perto do público leitor, na rua, onde as pessoas circulam. Conversei alguma vezes com seu Jinkings e participei de muitos eventos na livraria e quando a Leila, sua filha, passou a tocar a Livrariazinha e implementar a leitura, ao convite dela, dona Isa, Toninho e Varico, fomos, eu, Maria Lygia e nosso filho Filipe, juntos à ação concreta de formar cidadãos por meios  do livro e da leitura  e então vieram as crianças às atividades que visavam proporcionar a pais e filhos a convivência com o mundo mágico do livro e da leitura  que faz pensar, leva à cidadania cultural instrumento democrático   que  pode mudar a  sociedade , pra melhor, é claro.

Centenas de crianças passaram por lá nas manhãs de sábado do tempo que durou e quanto gente se tornou leitora e ficou amiga dos livros através dessa ação política, semente plantada por seu Raimundo Jinkings e cultivada por toda a família.

Ao lado desse trabalho, desenvolvia meu projeto, o escritor na escola , desde a década de 1960, de formar leitor , depois  veio o programa O Liberal na escola com o mesmo objetivo, onde passei 15 anos na direção e formando leitor e a continuidade do trabalho que não acaba nunca que é formar novas gerações de leitores por toda parte, incentivando  a adoção de espaços de leitura, sobretudo aqui na região amazônica.

Para concluir o texto e fechar o raciocínio através do título deste artigo, lembro que minha formação de leitor começou no seio de minha família, com meus pais, irmãos e demais familiares e prosseguiu na escola e em toda parte. Mas, há ações que são muito significativas nessa continuidade que são as oportunidades que a vida reserva, como foi o caso do contato com o livro no que  se pode chamar de embrião das atuas feiras do livro. Seu Jinkings, pra mim, foi o semeador e o pioneiro entre nós da Feira de livro que aconteceu em 1984, por inciativa do secretário de cultura Acyr Castro e que aconteceram posteriormente no hall do Centur sob o comando da bibliotecária Valdete Cunha e que depois seguiram com outras denominações,  até  a atual que se chama Feira Pan Amazônica.

A cada um de nós cabe a tarefa de formar leitor crítico, geração a geração, para que possamos vir a ser um país  de leitores  que efetivem o sonho de todos por um sociedade mais igualitária, mais justa ,mais fraterna e mais  feliz!

(Salomão Laredo é escritor e jornalista)

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